O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou espaço no cenário nacional como símbolo de avanço nas relações de trabalho. A proposta, que reduz a concentração de seis dias consecutivos de trabalho para um único dia de descanso, carrega um apelo social legítimo: mais qualidade de vida, equilíbrio e dignidade ao trabalhador.
No entanto, qualquer mudança estrutural nas regras do trabalho precisa ser analisada à luz de um fator essencial: a produtividade da economia brasileira.
O Brasil produz, em média, cerca de um quarto do que produz um trabalhador nos Estados Unidos e aproximadamente um terço do que produz um trabalhador na Alemanha. Essa diferença não está relacionada à disposição para o trabalho. O brasileiro trabalha muito. O problema é estrutural.
Produtividade não é quantidade de horas trabalhadas. É valor gerado por hora trabalhada.
Nos países desenvolvidos, o diferencial está em investimento pesado em tecnologia, automação, qualificação técnica e gestão eficiente. No Brasil, ainda enfrentamos um cenário marcado por baixa especialização da mão de obra, parque industrial defasado, baixa taxa de investimento e um ambiente tributário complexo.
Reduzir ou reorganizar jornadas, por si só, não corrige essas fragilidades.
Onde o impacto será mais sentido
É importante destacar que grande parte da economia já opera com jornadas próximas de 40 horas semanais. O fim da escala 6×1 não afetaria todos os setores da mesma forma.
Os impactos mais relevantes ocorreriam em segmentos intensivos em mão de obra e com funcionamento contínuo, como hospitalidade, varejo físico, shoppings, postos de combustíveis e serviços presenciais.
Nessas atividades, a escala 6×1 é um mecanismo de organização operacional para manter atendimento ao público todos os dias da semana com viabilidade financeira.
Ao extinguir essa escala, as empresas terão três alternativas: contratar mais funcionários, aumentar preços ou investir em automação. O desafio é que contratar no Brasil é caro.
O peso do custo previdenciário
O salário pago ao trabalhador é apenas parte do custo. Sobre ele incidem INSS patronal, FGTS, contribuições ao Sistema S, RAT e outros encargos. Esse conjunto compõe parte relevante do chamado “Custo Brasil”.
Na prática, ampliar o quadro de funcionários para compensar a redução da jornada significa aumento direto da folha e das contribuições previdenciárias. Em setores de margem estreita, isso pode pressionar preços, reduzir competitividade ou estimular informalidade.
Se o debate sobre jornada não vier acompanhado de uma discussão séria sobre desoneração da folha e simplificação tributária, o risco é aumentar custos sem elevar produtividade.
Trabalhar menos pode significar produzir mais?
Sim, pode. Mas não por decreto.
Em ambientes produtivos modernos, jornadas mais equilibradas podem reduzir absenteísmo, melhorar engajamento e elevar a produtividade por hora trabalhada. Porém, isso depende de investimento em tecnologia, qualificação contínua e eficiência operacional.
Sem enfrentar os gargalos estruturais da economia, apenas reduzir dias trabalhados pode resultar em menor produção ou maior custo por unidade produzida.
O debate que realmente importa
A discussão sobre o fim da escala 6×1 é legítima e necessária. A busca por melhor qualidade de vida é uma pauta civilizatória.
Contudo, o verdadeiro desafio brasileiro não está na quantidade de dias trabalhados, mas na baixa geração de valor por trabalhador. O país investe pouco, qualifica pouco e tributa intensamente o emprego formal.
O avanço social precisa caminhar junto com responsabilidade econômica. Reduzir jornada sem atacar o núcleo do problema — baixa produtividade e alto custo estrutural — pode gerar efeitos indesejados, como inflação de serviços, perda de competitividade e retração no emprego formal.
O salto de desenvolvimento que o Brasil precisa não virá apenas de trabalhar menos dias. Virá de produzir mais valor por hora trabalhada, com mais tecnologia, mais qualificação e menos entraves ao empreendedorismo.
Esse é o debate que deve orientar qualquer mudança duradoura nas relações de trabalho.
Alvaro Alexandre Caninéo
Empresário contábil
Diretor Presidente do Grupo Dicon